Espuma dos dias — “Felipe González: o despudor de um político indecente”.

Nota de editor:

A notícia da venda de armas a Pinochet por Felipe González abaixo relatada por Danilo Albin, não é propriamente uma novidade. Já em 2015, e a propósito da Venezuela, Felipe González, participando plenamente na caravana de propaganda organizada em Espanha pela oposição de ultra-direita da Venezuela e apoiada pelo governo do PP de Rajoy, teve o despudor de afirmar: “sob Pinochet os direitos humanos eram mais respeitados que com Maduro”, conforme relatou o jornalista Gutiérrez Betancor (ver aqui). Marcos Roitman Rosenmann, académico e analista chileno, exilado em Espanha desde 1974, traça o perfil de González em texto escrito em 2015 que publicamos em conjunto com este artigo de Danilo Albin.

FT


Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 min de leitura

O governo de Felipe González manteve a venda de armas a Pinochet apesar de conhecer os seus crimes

 Por Danilo Albin

Publicado por  em 13 de Setembro de 2023 (original aqui)

 

O ex-presidente de governo Felipe González no passado 20 de Junho em Madrid – Alejandro Martinez Vélez /Europa Press

Vários documentos indicam que o executivo do PSOE autorizou exportações de material militar para a ditadura chilena pelo menos até 1986. Vários deputados tentaram conhecer o conteúdo dos acordos comerciais, mas não o conseguiram.

Os negócios puderam mais do que o horror. As denúncias que chegavam de Santiago do Chile em torno dos crimes da ditadura de Augusto Pinochet não foram suficientes para travar a exportação de armas espanholas para esse país entre 1983 e 1986. Os acordos comerciais registados nesse período contaram em todos os casos com a aprovação do Governo de Felipe González.

Coincidindo com o 50º aniversário do golpe de Estado contra o governo democrático de Salvador Allende, o Público compilou diferentes documentos que descrevem as exportações de material militar para o Chile autorizadas pela Espanha nos anos 80.

A ditadura de Pinochet figura numa lista oficial de compradores de “armas de guerra, suas partes, peças, projéteis e munição” de fabricação espanhola no período compreendido entre 1983 e 1986, com Felipe González em La Moncloa. Assim consta numa resposta parlamentar enviada ao Congresso pelo Executivo do PSOE em abril de 1987.

Segundo resulta de outro documento remetido às Cortes, o governo espanhol autorizou exportações de armamento à ditadura chilena até agosto de 1986. Nessa data – mais de três anos e meio depois de estar em La Moncloa – González ordenou a paralisação de novas autorizações, embora as aprovadas antes dessa data tenham sido autorizadas a prosseguir.

De acordo com dados oficiais da época, as operações aprovadas entre janeiro de 1983 e agosto de 1986 superaram os 15.000 milhões de pesetas. Uma análise realizada pela Cátedra UNESCO sobre Paz e Direitos Humanos da Universidade Autónoma de Barcelona permitiu concluir posteriormente que entre os materiais vendidos nesse período figuravam metralhadoras, explosivos, patrulheiras para a Marinha e aviões militares.

Essas transações foram autorizadas apesar das reiteradas denúncias que chegavam do Chile sobre as graves violações de direitos humanos a cargo da ditadura de Pinochet. Até então, a temível DINA – polícia secreta do regime – havia sequestrado e feito desaparecer mais de 1.100 dirigentes de partidos políticos de esquerda.

O escândalo chegou até ao Departamento de Estado do Governo dos EUA. Num relatório enviado a Washington em maio de 1986, a representação diplomática americana em Madrid ecoava as informações divulgadas por alguns meios de comunicação espanhóis sobre a venda de armas a Pinochet.

“O PSOE opunha-se a este tipo de transações antes de chegar ao poder”

 

O documento do Departamento de Estado apontava que “o governo socialista nunca ocultou as vendas, embora tenha tentado minimizar a sua importância”. “No entanto, o PSOE opunha-se a este tipo de transações antes de chegar ao poder”. “Não parece que vá haver uma mudança de política nas vendas ao Chile”, advertiam os diplomatas dos EUA instalados em Madrid.

O relatório enviado a Washington indicava que o governo espanhol da época argumentava que “só vende ao Chile armamento pesado inadequado para a repressão policial de manifestantes, e que o volume de venda de armas diminuiu”. Do mesmo modo, sublinhava que “nenhuma figura pública expressou arrependimento pelas transações ou sugeriu que fossem travadas”.

 

“Confidencialidade”

A ausência de “arrependimento” a que aludia o Departamento de Estado combinou-se com uma clara aposta pelo hermetismo: segundo consta em diferentes respostas parlamentares, o executivo que chefiava Felipe González rejeitou diferentes pedidos de informação formulados por deputados de diferentes formações, alegando que se tratava de assuntos protegidos pela “confidencialidade”.

De facto, o governo do PSOE recorreu em 1987 à aprovação de um decreto que outorgava caráter secreto às atas da Junta Interministerial que analisa os pedidos de exportação de armamento.

Esse decreto segue hoje vigente e constitui o principal obstáculo para conhecer os motivos alegados pelos governos de turno para facilitar o envio de armas a países assinalados pela violação de Direitos humanos, entre os quais se encontra a Arábia Saudita.

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O autor: Danilo Albin, jornalista espanhol, trabalha para o Público.es.

 


Felipe González: o despudor de um político indecente

 Por Marcos Roitman Rosenmann

Publicado por  em 31 de Março de 2015 (original aqui)

Felipe González tem no seu ativo político o ter urdido parte do processo desestabilizador que culminou no fracassado golpe de Estado do 23-F na Espanha, para criar um governo cívico-militar. Para muitos, Felipe González é um ícone da democracia espanhola. No entanto, nada mais distante da realidade. O seu passado é outro. Hoje apresenta-se ao mundo como o advogado defensor de Leopoldo López, dirigente do partido vontade Popular, e do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, eleito pela Mesa de Unidade Democrática (MUD). Ambos políticos venezuelanos, acusados de participar e urdir a trama de golpe de Estado para derrubar o Governo constitucional do presidente Nicolás Maduro.

Felipe González tem uma face oculta. No seu ativo político tem o ter urdido parte do processo desestabilizador que culminou no fracassado golpe de Estado do 23-F na Espanha, para criar um governo cívico-militar. Também geriu a guerra suja contra a esquerda abertzale e a ETA [do país vasco]. Sendo presidente do Governo, entre 1983 e 1985 deu luz verde à atuação dos Grupos Antiterroristas de Libertação (GAL). O resultado: 27 pessoas assassinadas e centenas de vítimas colaterais.

A história de Felipe González está indissoluvelmente ligada à evolução do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) desde os anos 70 do século XX. A modernização política havia substituído os velhos camisas azuis e uma geração de novos políticos tecnocratas invadiram o poder. Neste contexto, Franco nomearia em 1969 o seu sucessor. O regime teria continuidade sob a restauração monárquica. O escolhido não seria o filho de Afonso XIII, Dom Juan, mas o seu neto, Juan Carlos, saltando a cadeia sucessória. Em 20 de novembro de 1975, Franco, após 40 anos de ditadura, morreu na cama. O seu regime sobreviveu. Em 22 de novembro de 1975, Juan Carlos I é coroado rei.

Em novembro de 1976, as cortes franquistas aprovam convocar um referendo para a reforma política, a ser realizado em 15 de dezembro. Os atores da modernização estão no poder. Adolfo Suárez preside o governo e uma oposição tolerada é legitimada. Em fevereiro de 1977, o PSOE é legalizado e em abril do mesmo ano o Partido Comunista. Os interlocutores reconheciam-se, mas o itinerário tinha sido desenhado com o caudilho em vida. O objetivo, encontrar uma saída negociada, redigir uma lei de amnistia e ponto final para salvaguardar os dirigentes do regime. Os Estados Unidos, a Alemanha e a Grã-Bretanha, defensores de Franco, gratos pelo seu papel na luta anticomunista, exigiam uma organização opositora confiável, capaz de negociar uma vez morto o ditador. Voltam os olhos para o PSOE. Partido com pouca atividade durante a ditadura e considerado pró-ocidental.

Nesta estratégia, o Departamento de Estado americano entra em contacto com um homem obscuro, advogado laboral e militante do partido: Felipe González. Em pouco tempo, transformar-se-ia numa figura destacada da transição. A operação contou com fundos e aval dos países indicados e da social-democracia internacional. Previamente, Felipe González e a sua equipa deveriam tomar as rédeas do PSOE, nas mãos da velha guarda desde 1944. O momento ideal, o 26º Congresso, a ser realizado na cidade francesa de Suresnes, em 1974. Nesse evento, Felipe González será nomeado secretário-geral, substituindo Rodolfo Llopis. Dois anos mais tarde, em dezembro de 1976, o PSOE celebrará, na clandestinidade, o seu 27º Congresso em Madrid; radiodifundido e transmitido pela televisão, e ninguém será detido. Nesse instante, Felipe González, aclamado pelo partido, torna-se o homem dos Estados Unidos na Espanha e o interlocutor da social-democracia europeia para a América Latina.

Em 1982, o seu partido obteve maioria absoluta, sendo eleito presidente do governo. É quando ele tira a sua máscara. No meio da guerra de contra-insurreição na América Central, declara: haveria que ajudar os Estados Unidos a encontrar a dimensão positiva da sua liderança na América Latina. E de passagem nunca surpreender a administração Reagan nas decisões que tomasse o executivo.

O seu périplo pela América Latina não tem desperdício. No seu currículo, devemos destacar a relação com o então membro da Junta Militar Argentina, almirante Eduardo Massera, para criar o partido Democracia Social, integrado na Internacional Socialista. Manobra que fracassou redondamente, não sem antes González apresentar Massera como social-democrata. Estes dados vieram à luz no caso instruído pelo juiz Garzón contra a ditadura Argentina. Divulgados pela equipa Nizkor e pelo jornal argentino La Nación.

Durante a ditadura de Videla, Felipe González condecorou vários militares. Entre outros, o almirante Rubén Franco, condenado posteriormente a 25 anos de prisão por participar no sequestro e apropriação de filhos de desaparecidos, com a Grã-Cruz da ordem do Mérito aeronáutico. Além disso, não teve escrúpulos em tornar-se garante da venda de armas às ditaduras latino-americanas.

Só no Chile de Pinochet, entre morteiros, lançadores de foguetes, metralhadoras, aviões de treinamento, helicópteros, no ano de 1983, os lucros superaram os 80 milhões de dólares. Não é de estranhar que tenha pedido a liberdade de Pinochet com tanto afinco após sua detenção em Londres, sem esquecer que nos anos 80 recomendou a Ricardo Lagos que fosse Pinochet o timoneiro da transição. A visita de ministros de Pinochet a Espanha para assessorar as privatizações, a reforma laboral e abrir as portas à Telefónica, Iberdrola, Endesa, Repsol, Santander, BBVA, no Chile foi uma constante.

Financiou a contra nicaraguense, apoiou o relatório Kissinger e negou apoio ao FDR-FMLN em El Salvador. Após a sua saída da política, tornou-se assessor de lóbis e empresas transnacionais espanholas, americanas e europeias, entre outras de venda de armamento, obtendo lucros consideráveis. Além de assessorar empresários Latino-Americanos para sacar das suas riquezas, entre os quais se destaca Carlos Slim. Ele agora apresenta-se como um democrata comprometido com as liberdades na América Latina. Nunca esteve nem estará. Enquanto cultiva o seu hobby, comprar e projetar jóias, incentiva a desestabilização levada a cabo por golpistas. Não pode ser de outra forma. Ele sempre voou nesse ninho. Os Estados Unidos agradecem. O seu despudor não tem limite.

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O autor: Marcos Roitman Rosenmann [1955-] é um académico, sociólogo, analista político e ensaísta chileno. Desde 1974, exilado durante a ditadura de Pinochet, reside em Espanha. É doutorado em Ciências Políticas e Sociologia pela Universidade Complutense de Madrid e professor nessa mesma universidade. Referente no mundo académico em áreas como os processos sociais e revolucionários latino-americanos. Teve destacada participação na preparação da estratégia legal para o julgamento de Augusto Pinochet após a sua detenção em Londres, a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón. Sobre obras publicadas e mais detalhes ver wikipedia aqui.

 

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